segunda-feira, 19 de março de 2012

Sobre enchentes de São José


Choveu a noite toda. Uma chuva que não era forte, mas que também não era uma chuvinha qualquer. Chuva destas que embalam o sono quando o som do telhado e seus respingos fazem a gente puxar a coberta de algodão e dormir rebuçado.

Na manhã seguinte, aquela chuva constante virou chuvisco e a cidade acordou com um som diferente. O ronco surdo das águas podia ser ouvido de qualquer ponto de Lagolândia. Era o rio de águas barrentas que avançava ameaçadoramente em ondas nunca vistas e que faziam aquele movimento que o mar faz na praia. A diferença era que ondas vinham e não voltavam mais. E assim, o Rio do Peixe engolia tudo à sua volta.

Árvores centenárias, vacas e outros animais passavam frente aos olhos dos moradores e moradoras que se amontoavam à beira daquela enchente de proporções inimagináveis. O ano era 1992, o mês era março e o dia era ali bem perto do dia 19. Sei porque alguém sempre lembrava: "É a enchente de São José!".

Logo as casas foram atingidas. Correrias para retirar a mobília e levá-la para um lugar seguro. O tempo era muito pouco. A água parecia ter pressa e, em menos de 40 minutos, atingiu a praça central do vilarejo e construções ali perto. Das casas do lado de baixo só se viam os telhados, inclusive do Salão da Santa Dica. Todos se aglomeraram no lado de cima da praça assistindo a tudo sem ter muito o que fazer. Lembro-me que algumas pessoas conjuravam suas profecias:

- "O mundo vai acabar em água".
- "Se a água chegar no cruzeiro da praça é sinal de que o fim chegou!".
- "Quem quiser se salvar terá que subir para o morro da torre de TV!".

Diante daquela cena dantesca, a surpresa se instaurou entre os presentes quando, frente aos olhos temerosos de todos/as, um jovem passou deitado em sua bóia gigante, fazendo da quadra de esportes sua piscina de água suja. Ali não cabia medo, pois mesmo conduzido pela fúria das águas, ele era só alegria.


Foto: Wolney Fernandes
Citação de Manoel Ferreira

Um comentário:

Anônimo disse...

Você tem o dom de transformar um acontecimento cotidiano (talvez esse nem tanto...) num poema, numa canção... Admiro você!!! Cláudia Bastos