quarta-feira, 11 de abril de 2012

Abril Despedaçado - A possibilidade de ver maio chegar

Abril Despedaçado [Brasil, 2001] começa com uma camisa ensanguentada tremulando no varal. Pelo seu movimento somos apresentados aos membros da família Breves: um pai, uma mãe e dois filhos: Tonho, um rapaz de 20 anos condenado a dar continuidade a uma antiga rivalidade entre sua família e os Ferreira, onde a honra é medida pela hora de matar ou morrer. Pacu, o irmão mais novo, é um menino que tem seus sonhos e fantasias constantemente abafados pela severidade paterna e a dureza da vida.

"A mãe costuma dizer que Deus não manda um fardo maior do que a gente costuma carregar. Conversa fiada! Às 'veiz' ele manda um peso tão grande que ninguém 'guenta'!"

No seio daquela família não se pode observar qualquer esperança, pois a vida é regida pela relação com a morte. O engenho, única fonte de sustento, marca o giro repetitivo daquela condição. Um relógio que contabiliza o tempo que parece não passar, os bois que giram e jamais saem do lugar demarcam um movimento onde as palavras e a visão são limitadas.

No entanto, à medida que a história avança, percebemos que a roda de bois começa a mostrar sinais de fadiga e desgaste. O menino aponta e Tonho, angustiado pela perspectiva da morte, passa então a questionar a lógica da violência e da tradição.

"Nessa história de olho por olho, todo mundo ficou cego!"

Esse questionamento ganha força com a chegada de Clara e Salustiano, dois saltimbancos que enxergam além do sépia e do horizonte conhecido por Tonho e Pacu. No chão árido, a jovem do circo anda leve de pernas de pau e mostra um pedaço do céu, de mar, de amor e alegria aos dois. Ao ganhar um livro da moça, o menino imagina a história de uma sereia e, de tão absorto, esquece de levar a cana para moer - seus sonhos o deixam afastado de alimentar a engrenagem que move toda aquela organização familiar e social.


A possiblidade de ver maio chegar é dada pelo olhar que vem de fora e que prenuncia a ruptura de um ciclo, subvertendo toda uma ordem. Depois de assistir ao filme pela quinta vez, saio com a certeza de que na vida real é preciso estar atento às oportunidades de renovação, de liberdade de escolha, de encontro com o mar aberto e todo um oceano de possíbilidades. Que este seja o efeito de beleza que me liberte de eixos aprisionantes, que me faça sair do lugar comum e me incite a cultivar verdades apaixonadas.

Imagens capturadas aqui.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ótimo! Como sempre...
Que venham maio, junho, julho..... e muitos outros anos nessa dinâmica de salvação e vida que nos leva para fora de nós, para fora da rotina, da mesmice!
Viva a vida!
Jonas