domingo, 8 de abril de 2012

Profissão de Fé


Antes eu acreditava em um Deus zangado e esperava castigos ao invés de afagos. Atualmente, acredito que os barcos sonham, que as nuvens fazem desenho e até desconfio que o livro abandonado na página 47 revela estados de espírito variados. Minha fé reside em gestos pequenos e comportamentos de todo dia porque deixei para trás o Deus caprichoso e legislador das religiões e dos grandes acontecimentos. Sei ouvir os segredos da chuva e meus pensamentos circulam livremente sem bigornas ou censuras ditadas por livros sagrados.

As lições de catecismo eu subverto em minutos de sabedoria, de riso e ironia. Os santos viraram estampas de camiseta e para suas histórias eu invento finais profanos. Prefiro a devassidão soturna dos quartos paroquiais às falas de púlpitos e presbitérios. Meu hino de louvor é entoado fora dos templos para cada pedacinho de céu que a realidade, mesmo dura, deixa entrever.

Creio que alegria não seja pecado e que a infelicidade de hoje não garante recompensas futuras. Não quero saber de paraíso se, para adentrá-lo, não puder ser quem eu sou. Ainda tenho medo da morte porque acredito que morrer é retornar ao que eu era antes de nascer: nada.

No entanto, acredito que esse nada que eu tanto temo se conecta ao infinito e a vastidão desse universo cheio de mistérios e estrelas. Pensando bem, ainda tenho medo da morte porque, na verdade, eu nunca sonhei ser astronauta.

2 comentários:

MARCVS VINICIVS disse...

Eu creio, mas aumenta a minha fé!

Reinaldo disse...

Quanta lucidez... <3