segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Intervalos entre capas e conteúdos


O nome do Pe. Fábio de Melo na capa não inspirava nenhum tipo de motivação para que meu interesse se fixasse naquele livro. Ao contrário, sempre fujo dessas armadilhas literárias orquestradas por padres fábios, marcelos e afins.

A capa também não era lá um exemplo de bom design. Sim, sou ávido praticante de buscas por capas inspiradoras. Encantado com a beleza da casca, já mergulhei em muitas histórias sem sabor. Mas não era o caso. Um passo vacilante fez meu interesse se fixar no título da publicação - "Orfandades - o destino das ausências" - e foi exatamente isso que me fez parar.

Estava na rodoviária de Brasília, o que já me garantia uma certa folga em relação ao anonimato. Tinha cerca de 20 minutos antes da chegada dos amigos que iriam me buscar no local. Mesmo assim, cautelosamente, espiei no entorno antes de pegar o livro da prateleira. Não podia correr o risco de ser confundido com um desses fiéis lambedores de tudo que padres fazem, cantam ou escrevem. Mesmo já tendo sido um desses fiéis no passado, em minha fase so cool não caberia tais carolices.

Li o texto da quarta capa. Gelei. O trecho me arrebatou de imediato, pois descrevia identificações muito caras a sentimentos já vivenciados no passado e, para piorar, o conteúdo era embalado no que eu considero uma boa escrita. Corri para o sumário na esperança de que ele me libertasse daquela identificação inicial e tropecei em um pequeno trecho inicial:

"[...] Ousei ver de perto o desconforto dos que não negligenciaram o assombro dos breus. Deite a toalha branca sobre a mesa. A crueza literária está posta. Este livro é filho das saudades."

Novo arrebatamento e eu, já desesperado, não sabia como largar aquele livro de novo na prateleira. Olhei novamente ao redor e ponderei silenciosamente com meus botões: "Calma, Wolney! Não se apegue a estas breves palavras. Comprar esse livro só vai evidenciar ainda mais as incoerências que você faz questão de esconder."

Fazendo pose de cara mais coerente do mundo, abandonei o livro entre os outros, saquei meu iPhone do bolso e fui postar e curtir fotos no Instagram porque é isso que os caras descolados fazem. Meus amigos chegaram e o final de semana transcorreu entre risos, sabores, encontros e um certo desconforto. Sim, minha suposta coerência tinha sido posta a prova por um livro do Pe. Fábio de Melo.

Na volta, pensei em comprar o livro juntamente com uma revista porque se a moça do caixa me perguntasse ou fizesse olhar de reprovação, haveria sempre uma possibilidade de dizer que a revista era pra mim e o livro uma lembrança para minha mãe. Benditas sejam as mães! Cult, Bravo ou Select seriam bons títulos para evidenciar a [também suposta] distância entre as duas publicações e me livrar desse suposto constrangimento.

No final das contas, a fome falou mais alto e, por precisar ficar na fila para comprar um lanche antes de embarcar, acabei voltando para Goiânia sem ter tempo de passar pela livraria. Foi na viagem de volta que me dei conta de que, outra vez, estava eu naquela tentativa ridícula de parecer uno, centrado, coerente, preciso e locado em um pólo apenas. A verdade é que sou "erudito e popular na mesma toada"como um amigo bem escreveu a esse respeito e que vivo passeando, o tempo inteiro, entre um pólo e outro.

Comprar livro pela capa, mesmo odiando o conteúdo como eu já fiz várias vezes, me pareceu tão mais vazio do que o contrário dessa equação. Se o livro do Pe. Fábio de Melo havia me atravessado pela escrita, que mal haveria em considerar isso como parte dos meus gostos e afetos? Desconsiderar o conteúdo que me tocou em função de uma pseudo erudição que se finda nos meus en(cantos) subjetivos é besteira que não quero ficar repetindo por aí.

Na chegada, tratei de garantir meu exemplar do livro, encarando a atendente da livraria para perguntar: Você tem o livro novo do Pe. Fábio de Melo? Sorrisos fartos. Ela tinha! Se o livro é realmente bom ainda não sei dizer. No entanto, sigo aprendendo a prestar mais atenção naquilo que meus olhos não se fixavam antes e me deixando atravessar por palavras que me arrepiem os poros e que fazem minha boca ter sede de escrita.

[O tal trecho da quarta capa]
"Era assim. Na escuridão da noite eu procurava o corpo paterno. Aconchegava-me ao seu lado e punha atenção no compasso de seu respiro de homem. A tudo eu contemplava. A voz grave, a postura de quem não conheceu as delicadezas do mundo, a exata medida das mãos que minhas mãos gostariam de ter, tudo observado em silenciosa admiração. A barba cerrada, o olhar capaz de enxergar-me no escuro, o alívio do medo, a devolução da vida. Meu pai e seu mundo profundo. Eu e meu mundo de estreitezas. Ele, na liberdade de estradas que não conheciam destino nem fim. Eu, na solidão de paredes sensatas, prova de que os laços de sangue podem nos privar das alegrias, ocultando-nos em abrigos inóspitos onde prevalecem as pregas da cortina que nos desprotege sem piedade."

Foto: Wolney Fernandes

Um comentário:

Tales Gubes disse...

É tão bom encontrar quem escreva algo que corresponde ao que sentimos! Hoje foi teu blog :)