quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dezessete de outubro de 2012 - Quarta


Minha rota de fuga encontrou aporte nas últimas páginas do livro "Ao Anoitecer" de Michael Cunningham que eu, depois de meses de leitura arrastada, desejava terminar. Não porque o conteúdo da obra fosse maçante, mas porque o cansaço dos últimos minutos do dia não me deixavam avançar mais do que três páginas antes de dormir.

"Quem pode decifrar a profundidade e a natureza de nossas aflições?"

Abandonei a vontade de ver um filme no meio da fila e, com o livro em punho segui para o parque em plena tarde de quarta-feira, ávido para saber o destino de Mizzy, Peter e Rebecca, vértices de um triângulo curioso. Peter Harris, dono de uma galeria de arte contemporânea, com 44 anos é casado com Rebecca e, de repente, se vê extremamente perturbado e atraído pela presença do cunhado - Ethan, apelidado de Mizzy - vinte anos mais jovem, que precisa passar uma temporada hospedado em sua casa.

Mizzy é uma provocação ao conceito de liberdade porque embora o rapaz tenha todas as possibilidades diante de si, nunca consegue se decidir por nenhuma delas. O fascínio que ele desperta em Peter [e em nós, leitores] é ainda ampliado por dois trunfos, talvez perversos demais para qualquer pessoa com mais de 35 anos: beleza e juventude.

"Juventude. Impiedosa, cínica, desesperadora juventude. Ela sempre vence, não é?"

No meio de tantos questionamentos sobre liberdade e juventude colocados no livro, este com certeza foi  o que mais me tocou. Perto dos 40 anos começamos a ficar seduzidos por esse suposto poder absoluto que reside no simples fato de ser jovem e passamos a olhar a juventude de um outro lugar, sem saber exatamente onde está situada a linha muito tênue da maturidade.

O desfecho da história é brilhante. Eu que gosto de começos, fiquei fascinado pelo final do livro que entre tantas surpresas, nos convoca a olhar para nossos interiores em parágrafos impecáveis como este aqui;

"A história favorece os amores trágicos, os Gatsby e Anna K., os perdoa, ainda que acabe com eles. Mas Peter, uma figura pequena numa esquina indistinta de Manhattan, terá de perdoar a si mesmo, terá de acabar consigo mesmo porque parece que ninguém fará isso por ele. Não há estrelas folheadas a ouro sobre lápis lazuli acima de sua cabeça, apenas o cinza de uma tarde loucamente fria de abril. Ninguém vai esculpi-lo em bronze. Ele, como todas as multidões que não são lembradas, está esperando polidamente pelo trem que com toda a probabilidade nunca virá."

Sem mais, feliz por ter fugido das tarefas de todo dia, fechei o livro com aquela vontade de continuar nele!

Foto: Wolney Fernandes

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