sábado, 22 de dezembro de 2012

O Dia Depois do Fim


O dia depois do fim não me parece tão caótico. Só é decepcionante descobrir que a vida segue sem se importar se eu ainda faço parte dela ou não. Morrer é tão simples que deveria ser proibido lamúrias estendidas e vaidades inventadas em torno desse fato. Na morte, nada faz diferença.

A dor logo vai embora e, se a lembrança volta com frequência nos primeiros meses, não demora muito até ela também começar a ficar arredia e só aparecer quando bem desejar. Afinal, lembrança é borboleta que depois de um breve pouso nos escapa o tempo inteiro.

No dia depois do fim não há arrependimento capaz de consertar os pecados cometidos. A boa notícia é que também não há nenhum tribunal do outro lado para me cobrar o conserto. Tirando o céu e o inferno detrás da porta, sobra um vazio que, mesmo infinito, não cabe nenhum dos meus amores. Nem mesmo os materiais, quem dirá as pessoas com as quais eu troquei afetos.

Lamento pelos meus livros e por não poder dizer ao meu pai todos os impropérios que eu desejei um dia. Aqui, só solidão e silêncio. Qualquer esboço de sorriso é tentativa de rir de mim mesmo pelas culpas que carreguei vida afora - não as minhas próprias, mas as alheias que foram aquelas que mais pesaram sobre meus ombros.

Daqui pra frente, só mistério e esquecimento. Mesmo assim, nesse dia depois do fim, vago à procura de brinquedos e memórias.

Foto: Wolney Fernandes

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