quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A ausência que seremos


Na caixa de mensagens, um pedido: "Se estiver inteiro, vou aceitar que me leve para um parque". Embora eu não soubesse, aquele seria o último desejo do Walderes, registrado em linhas breves, mas cujo sentido eu faço ressoar de um jeito novo depois que ele partiu.

Tínhamos combinado uma tarde juntos, no parque, onde ele iria inaugurar uma cadeira de armar e eu ouviria trechos de um livro que ele tinha gostado bastante. Pediu para ler em voz alta pra mim. Vontade de anunciar as belezas que, em meio as dores que o câncer lhe impunha, também lhe atravessavam o peito nos últimos dias.

Os dias... tão banais até que se saibam últimos, tão cheios de depois até que se mostrem derradeiros. Por distração ou cansaço - nunca se sabe! - entupimos os universos contidos em cada instante na esperança de haver uma próxima oportunidade. O domingo acabou e Walderes não conseguiu ir ao parque comigo. Não estava inteiro. Era preciso juntar os pedacinhos que ele bravamente respigava a cada procedimento médico.

Na última vez que nos vimos, subi as escadas do primeiro andar do seu apartamento, decidido a convocá-lo a ler para mim. Desejava ouvir os trechos descolados das páginas do livro ao som da sua voz serena. Já que não era possível no parque, seria ali mesmo, no quarto onde ele repousava sob os cuidados da mãe. Os princípios da conversa me mostraram que ele não desejava falar, mas ouvir apenas. Perguntou-me tudo sobre os dias que estive em Recife e, enquanto eu falava, sem que ele soubesse, dobrei a vontade de ouvi-lo e coloquei-a no bolso. Ainda não era a hora.

Na saída, fiz carinho e desejei tranquilidades, embora meu próprio coração intranquilo, se apertava ao vê-lo mais silencioso do que o normal. Instantes depois, já no elevador, conjurei uma máxima que ele sempre repetia pra mim: "Coragem, hombre!"

Por todas as vezes que Walderes me encorajou é que, desde as 17 horas do último dia 17, a cada hora tento me rebelar com a morte que o silenciou. Afinal, foi ele quem proclamou valor aos meus desenhos, quem sussurrou direções para eu seguir, quem anunciou um Wolney que nem eu mesmo conseguia pronunciar.

Mais que um amigo, um irmão. Um homem com ideias e jeitos para felicidades.

A saudade, essa fenda que vai nos dilapidando lentamente num traço rápido, já me fez ler e reler o que ele escrevia numa tentativa de ouvi-lo novamente. Receio que, agora, como da última vez, ele só queira escutar. Acho que chegou a hora de levá-lo para o parque, não aquele dos nossos últimos planos, mas um outro que eu carrego aqui dentro do meu peito e onde há girassóis a se perder de vista.

Sentados em cadeiras de armar, eu confessaria:

"Walderes, você bem sabe que eu não sei estradas para longe de mim. Mas sinto vontade de encontrar muitos caminhos que sonhamos juntos em passos tortos, mas ritmados. Já sei que se perder o passo, terei a calma de reencontrar, noutra estação, qualquer coisa que valha. Viu como aprendi? Hoje, eu consegui o livro cujos trechos ouviria da sua boca. Ironia, premonição ou só mais uma coincidência - o que importa isso agora? - depois de chorar um pouco, olhei outra vez para a foto da capa, li o título do livro e me encontrei na certeza da 'Ausência que Seremos'. Fique tranquilo! Meu coração há de ficar também. Enquanto eu leio o livro, aproveita a vista."

A foto é minha. 
O título do texto eu peguei emprestado do livro de Héctor Abad

2 comentários:

Luisa Dias disse...

Wolney, também tenho vontade de ouvir a voz dele. O livro que você lerá eu li quando Walderes estava no Canadá e dei para ele quando chegou aqui, porque tinha certeza que foi escrito para o Wal. Também pedi para ele ler para mim, mas o tempo roubou esta possibilidade. Há de ficar tudo bem, mas nunca do mesmo jeito...

Onaldo Alves Pereira disse...

Sinto muito pela ida temporã do Walderes...