sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Borges e seus itinerários afetivos


Me interessei por Jorge Luís Borges ao ler "No meu peito não cabem pássaros" do escritor português Nuno Camarneiro. Nele, há um menino que olha o mundo de um modo muito peculiar e que foi inspirado em Borges. A identificação com o personagem foi tanta, que terminada a leitura do livro fui atrás de algo escrito pelo famoso escritor argentino.

Minha predileção por preambulações e itinerários afetivos me fizeram começar a leitura de Borges pelo livro Atlas. Uma espécie de mapeamento que o autor faz dos lugares que visitou na década de 80. E por lugares entenda cidades, esquinas, desertos, sonhos e até um brioche. Qualquer dispositivo que lhe incitava à escrita é registrado no livro que ele divide com María Kodama, cujas fotos também tecem narrativas e impressões sobre os caminhos percorridos pelo casal.

Borges herdou uma doença que ia lhe tirando as vistas na medida do seu envelhecimento. Desse modo, ler suas histórias e divagações acerca dos lugares explorados por seus toques, cheiros, sabores e sons, tornam a leitura de Atlas um desvelamento de pessoas, assombros e alegrias de um modo singular.

"Aqui sentimos de maneira inequívoca a presença do tempo, tão rara nestas latitudes. Nas muralhas e nas casas está o passado, sabor que se agradece na América. Não se exigem datas nem nomes próprios; basta o que sentimos de imediato, como se fosse uma música."

A escrita de Atlas abriu brechas, me fez desenrolar novelos de cotidianidades e deixou pontas soltas para que eu, como leitor, as atasse. Gosto assim, quando me sinto partícipe da narrativa. Há, ainda, uma dimensão poética tão forte no jeito que ele escreve os textos que os lugares vistos pelos "olhos" de Borges acionam inquietações breves, mas latentes sobre como pequenos gestos podem alterar a noção que temos de uma determinada realidade.

"A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara."

Se alguém ainda não conhece, recomendo a edição de capa dura feita pela Cia das Letras que é graficamente deslumbrante na mesma medida das palavras e imagens que a narrativa apresenta. Atlas foi pra mim uma porta de entrada para uma literatura que eu quero explorar para descobrir cada vez mais sobre mim mesmo.

"Não há um único homem que não seja um descobridor. Ele começa descobrindo o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores do arco-íris e as vinte e tantas letras do alfabeto; passa pelos rostos, mapas, animais e astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da própria ignorância."

Foto: Wolney Fernandes

Um comentário:

Lex Dizih disse...

Seu blog é incrível, gostei muito mesmo... parabéns!!

http://lexdizih.blogspot.com #desenhos