domingo, 9 de fevereiro de 2014

A Hora dos Ruminantes


Manarairema é uma cidadezinha pacata do interior onde todos se conhecem. A vida segue em ritmo lento e sem surpresas, até que uma manhã traz uma novidade que muda completamente a rotina dos habitantes: um acampamento nos arredores da cidade surge trazendo homens estranhos àquela realidade.

Esse livro eu conheci por indicação da Rosi Martins que me emprestou dizendo ser um dos melhores do autor goiano.

A história chamou minha atenção por mostrar costumes e afazeres de um cotidiano muito próximo ao que vivenciei na minha cidade natal nos anos vividos por lá. A narrativa permeada por um realismo fantástico, parece saída da boca dos mais velhos e recheadas com tiradas ótimas, do tipo:

“A fala de cada um devia ser dada em metros quando ele nasce. Assim quem falasse à toa ia desperdiçando metragem, um belo dia abria a boca e só saía vento”.

A trama dá margem a diversas interpretações e nos leva a uma atitude de hesitação diante de um acontecimento que não apresenta explicações naturais - como a invasão de cães e de bois ocorrida no vilarejo - ocupando, portanto, o tempo da incerteza.

Só o que sabemos é que os acampados estão sempre trabalhando, são de pouca conversa e não querem se misturar com a população local. Logo, os nativos fazem todo tipo de especulação sobre quem são os invasores e o que fazem ali. Quando as tentativas de aproximação iniciais falham, a curiosidade dá lugar à raiva e à inveja.

Numa abordagem fabulesca , José J. Veiga nos apresenta um enredo instigante em que se analisa o comportamento humano diante das mudanças, do inusitado e do incompreensível.

Gostei também do modo como o autor utiliza a escrita com descrições capazes de embelezar o tempo e suas virações e apresentá-las através de imagens que traduzem um esmero desmedido. Confiram!

Ao anoitecer:
"Manarairema ao cair da noite - anúncios, prenúncios, bulícios. Trazidos pelo vento que bate pique nas esquinas, aqueles infalíveis latidos, choros de criança com dor de ouvido, com medo de escuro. Palpites de sapos em conferência, grilos afiando ferros, morcegos costurando a esmo, estendendo panos pretos, enfeitando o largo para alguma festa soturna. Manarairema vai sofrer a noite."

Ao amanhecer:
"O dia seguinte amanheceu chuvoso, uma chuvinha de peneira fina. Uma poalha acinzentada cobria os morros, o rio, a distância, dando à paisagem uma feição de mundo nascente, bezerro recém-lambido, ainda molhado da língua materna. Sentadas perto do fogão nas cozinhas enfumaçadas as pessoas bebiam café ouvindo as queixas dos sabiás nas jabuticabeiras. Ninguém lamentava o estorvo do tempo, aquela chuva era um pretexto para passar a manhã em casa descansando, dando balanço."

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Livro: A Hora dos Ruminantes [4/5]
Autor: José J. Veiga
Editora Difel

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