domingo, 2 de fevereiro de 2014

Divórcio


O novo livro de Ricardo Lísias começa como um soco no estômago e acaba nos deixando perdidos nas fronteiras emaranhadas que separam realidade da ficção.

Nele, o escritor desfia toda a sua dor pelo fim de um casamento que ele imaginava feliz. Ao descobrir o diário da esposa, o protagonista atravessa a dor e a obsessão em dar ordem a sentimentos conflitantes.

"Morro só mais uma vez"

O livro tem uma escrita bem fluente e confesso que li quase de uma vez só em função dessa fluidez. No entanto, a incapacidade de distinguir os limites entre realidade e ficção - o autor é o próprio personagem e a descrição da elaboração do livro que temos em mãos é um dos jeitos que ele encontra para lidar com a dor da separação - me deixaram desconcertado nas partes finais.

O autor utiliza a metalinguagem para fazer jogos do tipo: "Não sei quantas pessoas vão ler 'Divórcio'. Provavelmente, um pouco mais que meus outros livros. Algumas vão gostar tanto que, no mesmo dia, acabarão procurando 'O céu dos suicidas' (primeiro livro dele). Em uma livraria, porém, o vendedor lamenta não encontrar um exemplar e diz que pode fazer uma encomenda. O leitor pensa por um instante e desiste".

Ou ainda: "Se minha ex-mulher não queria inspirar uma personagem, não deveria ter brincado com a minha vida. No estágio atual da ficção, é preciso que o esqueleto de um romance esteja inteiramente à vista. No meu caso, fizeram o favor de registrar parte do que aconteceu em um cartório".

Entende o que eu digo?

Como o livro é sobre dor, esse tanto de realidade talvez ajude a intensificá-la, mas nos capítulos finais ele faz estas descrições utilizando de um didatismo exacerbado que, a meu ver, parecem mais a conclusão de um tratado sobre superação.

No entanto, isso não faz o livro ruim. Pelo contrário, as identificações são imediatas e a escrita de Lísias é muito precisa sobre como é dolorido a perda de um grande amor. Lance a primeira pedra quem nunca sofreu pelo rompimento de um relacionamento ou se irritou quando percebeu que o mundo não pára diante da sua dor, por mais intensa que ela seja: "Desci até a plataforma chorando. Ninguém veio falar comigo. Ninguém me perguntou nada. Vou cair. Resolvo me encostar na parede. Minha vista continua escura, mas percebo que há muito gente ao meu redor. Ninguém fala comigo. Se eu chorar mais minha imagens vai ser captada pelas câmeras de segurança."

Dolorido assim e, ainda assim, bom de ler!

"Estou com medo de esquecer demais."
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Livro: Divórcio [3/5]
Autor: Ricardo Lísias
Editora: Alfaguara

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