domingo, 23 de março de 2014

Para Walderes Brito


A vontade de ler "A ausência que seremos" foi construída por um sentimento de perda. Um amigo muito querido havia me falado das belezas do livro e tínhamos combinado que ele leria algumas partes que o tocaram em um passeio de final de tarde que faríamos juntos em um dos parques de Goiânia.

O passeio nunca aconteceu conforme eu relatei aqui e, passados os primeiros dias de tristeza profunda pela perda do Walderes, em janeiro comecei a ler o livro.

A história, de cunho autobiográfico, gira em torno das memórias do autor Héctor Abad e suas experiências de infância à partir da relação afetuosa que mantinha com o pai, um médico sanitarista e professor universitário que lutou pelas áreas globais da saúde pública na Colômbia entre as décadas de 1950 e 1980.

Apesar das trezentas e poucas páginas, a leitura se prolongou até o fim de março. Esse prolongamento se deu em duas medidas. Na primeira delas, está o fato de que algumas partes do livro parecem repetitivas e algumas formulações parecem insinuar, incessantemente, um sentimento exagerado de admiração incondicional pela figura paterna.

"Sem esse amor exagerado que meu pai me deu, eu certamente teria sido uma pessoa muito menos feliz".

Mesmo que em alguns momentos o autor entregue algum sinal de autoconsciência sobre esse sentimentalismo exacerbado - "Não quero fazer uma hagiografia nem me interessa pintar um homem alheio às fraquezas da natureza humana" - fica a impressão de que esta é uma reflexão vazia de sentido, uma vez que ele não a seguiu à risca. Junto a afirmação excessiva da influência que o amor do pai exerceu sobre a vida do filho, há ainda a descrição do momento político pelo qual a Colômbia passava que, apesar de necessária para entendermos o contexto e as condições que levaram o pai à sofrer uma morte violenta, deixa a leitura entrecortada e sem a fluidez necessária para que ela se dê em ritmo contínuo.

No entanto, há uma outra medida que me deixou com um sentimento de orfandade depois de terminar a leitura quase três meses depois que a iniciei. Ler "A ausência que seremos" teve, pra mim, uma noção de prolongamento. Como se eu pudesse ouvir/dialogar com o Walderes por mais um tempo depois da sua própria ausência. E, por suscitar esse sentimento, eu gostaria de poder prolongar a leitura infinitamente.

A cada página lida, meus olhos buscavam trechos, palavras ou formulações de pensamento que pudessem sinalizar o que ele havia escolhido compartilhar comigo, mas nunca pôde. E nas primeiras duzentas páginas do livro eu não conseguia enxergar nada que chegasse perto desse desejo de partilha. Tive, então, que fazer uma pausa com medo de terminar o livro sem conseguir estabelecer esta conexão, sempre achando que eu tinha deixado passar alguma frase ou pensamento que o tivesse tocado de algum modo.

Foi então que, na última noite de sexta, ultrapassando os limites da segunda metade do livro, consegui ler nas palavras de Abad, as afinidades que eu desejaria partilhar com Walderes e, nessa inversão, pareceu-me que estava lendo não mais o autor colombiano, mas meu amigo pernambucano.

"Depois de mortos, ainda sobrevivemos por alguns frágeis anos na memória de outros, mas também essa memória pessoal, a cada instante que passa, está sempre mais perto de desaparecer. Os livros são um simulacro de lembrança, uma prótese para recordar, uma desesperada tentativa de tornar um pouco mais perdurável o que é irremediavelmente finito [...] E se minhas lembranças entrarem em harmonia com alguns de vocês, e se o que eu senti (e deixarei de sentir) for compreensível e identificável com algo que vocês também sentem ou sentiram, então esse esquecimento, esta ausência que seremos poderá ser adiada por mais um instante".

Ainda perdido por esta ausência, terminei a leitura com o peito dolorido de saudades e olhos afogados em lembranças. Mesmo com a narrativa acanhada e achando que o autor não foi capaz de lidar com o equilíbrio entre a proximidade e o distanciamento que esse tipo de texto exige - e é mesmo um tipo difícil de escrita - o livro permanecerá para mim como um pacto silencioso entre amigos. Um labirinto que eu posso percorrer à procura dos atravessamentos que emocionaram alguém tão importante pra minha realidade que nem a morte é capaz de dissolver.

"Não é a morte que leva as pessoas que amamos. Ao contrário, ela as guarda e as fixa em sua adorável juventude".

Foto: Wolney Fernandes

Um comentário:

Rezende Bruno disse...

Wolney querido que belo texto..hoje foi um dia de muitas recordações ... o Wal esteve de modo intenso e forte na minha memória e no meu corpo... foi então que visitando minha irmã Marora que ela mostrou-me seu texto. Chorei de saudade e emoção ao lê-lo. Obrigado. E repito Valter Hugo Mãe no texto que me presenteaste "procuro um silêncio limpo ...um dia essa saudade vai ser benigna ... a sensibilidade de quem viu o tempo acabar-se diante dos olhos a calar-se a cada dia ... construir uma memória que nos orgulhamos de guardar... " Abraços de gratidão com muita saudade