terça-feira, 25 de março de 2014

Os Verbos Auxiliares do Coração


"Com o dedo enrugado, Deus toca o nosso coração."

Comprei esse livro por causa do título que, sem dúvida, é um dos mais bonitos que eu já vi. Depois do primeiro encantamento com o título, li que a história era sobre a morte de uma mãe e a relação com o luto e a perda à partir do olhar de um filho.

Nessa pesquisa acerca da obra, descobri ainda que na língua húngara (país de origem de Esterházy), não existem verbos auxiliares e em uma explicação arrebatadora acerca da escolha desse título, o próprio autor esclarece:

"Na língua húngara, não existem verbos auxiliares, então, no título eu me referi a algo que não existe, porque é algo de que não se fala. Por mais que se fale da perda, do luto, nada irá melhorar essa dor. Nada, nem se esse livro tiver sucesso. Quando se obtém sucesso, a vontade primeira é contar para a mãe. Como a mãe não está viva, isso perde o valor."

Ao ler isso, minha vontade dobrou de tamanho e minha expectativa em relação ao livro cresceu bastante. Por ter vivenciado uma situação de luto há pouco mais de três meses, vi nessa explicação um jeito de encarar esse sentimento colocando-o em perspectiva a outras experiências semelhantes.

Terminei a leitura há pouco e suspirei aliviado por ter conseguido chegar ao fim. Não porque o livro seja ruim, mas porque é uma obra tão densa e triste que a gente termina cada página sob o peso da dor.

Verdadeiramente, o livro é uma caixa de lembranças da morte da mãe do protagonista, o que já instigaria seu tema e concepção à um texto forte, mas Péter Esterházy eleva à potência máxima o sentimento de perda.

"A possibilidade de chorar se movimenta em mim feito um animal nojento. Um nó peludo, encharcado, um gambá, por exemplo. Ou um chacal pequeno. Ou um rato gordo. Grande espaços vazios se alternam em mim com terrenos negros, sombrios. Os corredores comunicantes são os intestinos. Meu estômago resmunga o tempo todo. Penso apenas em pratos finos, filé com trufas. Há um cheiro de esgoto em mim. Não. Não. Não há nada. Mãe só existe uma."

A estrutura da narrativa é fragmentada compondo uma espécie de labirinto da memória permeado por armadilhas para quem tiver coragem de encará-lo.

A escrita do autor oscila entre um tom mais intimista e um estilo amplamente ficcional e apesar do peso melancólico, em alguns momentos apresenta um sarcasmo que não poupa ninguém.

"Como em um plano de viagem antes do fim das férias de verão, aconselhei ao meu pai e aos meus irmãos para que mais tarde não chorássemos. 'Tenho calmante comigo', eu disse. A minha irmã me olhou de lado, assustada, meu irmão, segundo o costume, comia desbragadamente, a careta do meu pai dava a entender, 'um homem não fala assim'. "

ou ainda

"Se fosse possível escolher quem deveria ressuscitar, você acha que seria Jesus?"

Enfim, "Os Verbos Auxiliares do Coração" não é um livro fácil, mas exatamente por isso eu recomendo a leitura porque acredito que tem a capacidade de nos tirar de uma zona de conforto ao nos apresentar um estilo de literatura completamente fragmentada.

As páginas não são numeradas, a voz do narrador muda sem nenhum sinal visível dessa mudança (também não há capítulos) e no rodapé de cada página, citações de Camus, Borges e Lautréamont estabelecem pontes, diálogos e aproximações com o que está escrito ali.

Destaque para um projeto gráfico em perfeita sintonia com a obra, a começar pela capa que traz uma tarja preta adesivada sobre a foto deixando entrever apenas frestas da imagem que ela cobre. Uma metáfora perfeita sobre o modo como o mundo nos apresenta depois da morte de alguém querido.
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Livro: Os Verbos Auxiliares do Coração [4/5]
Autor: Péter Esterházy
Editora: CosacNaify 

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