sábado, 12 de abril de 2014

As Horas


Ler “As Horas” de Michael Cunningham depois de ver o filme foi uma experiência, no mínimo, curiosa. Digo isso porque o longa de 2002 é um dos meus filmes preferidos da vida e depois de assisti-lo inúmeras vezes, já o tenho guardado na memória em forma e conteúdo. Assim, ao avançar pelos capítulos do livro, as personagens já tinham rostos conhecidos, os cenários e diálogos pareciam familiares e, por vezes, parecia ouvir a trilha de Phillip Glass em vários parágrafos.

Essa é uma daquelas raras exceções em que o filme está à altura do livro. E é fácil compreender porque a história foi parar no cinema, uma vez que a escrita de Cunningham se assemelha a um roteiro cinematográfico.

Com maestria invejável, o autor costura as histórias de Virginia Woolf, Laura Brown e Clarissa Vaughn tendo como fio o romance Mrs. Dalloway. Três narrativas simultâneas que se complementam e tecem um painel dolorido sobre inadequações vivenciadas em meio ao fluxo incessante de situações banais do dia a dia.

Em 1923, Virginia Woolf tenta fugir dos sintomas de distúrbios mentais que a perseguem enquanto escreve o livro Mrs. Dalloway. Sua busca por um dia a dia “normal” ressoa no cotidiano de Laura Brown que, em 1949, encena o papel de dona de casa perfeita sem que seus sonhos e desejos estejam contemplados nesta tarefa. Ao ler o romance de Virginia, Laura parece tomar as palavras do livro como aquelas que descrevem seu destino.

Completando a tríade, na Manhattan do final do século XX, encontramos Clarissa que, em medidas idênticas revive os dramas de Mrs. Dalloway enquanto prepara uma festa para o amigo e ex-amante Richard, poeta, gay e aidético terminal.

O modo como estas mulheres vivenciam seus dramas domésticos é o que compõe o painel melancólico de sonhos perdidos, deixados no passado e impossíveis de se retomar. Todas as histórias lidam com a difícil – e nem sempre possível – escolha entre aquilo que está no plano dos desejos e aquilo que a realidade circunscreve.

Me impressionou bastante o modo como o autor conseguiu criar algo tão original a partir de uma obra já escrita e muito complexa. Pela composição de três mulheres (uma real e as outras fictícias) ele nos faz olhar para nossa própria realidade questionando o que ficou para trás e o que ainda nos resta daquilo que idealizamos para nossas próprias vidas.

Há ainda algumas curiosidades interessantes que permearam a leitura. Uma delas tem relação com o filme: Quando Clarissa é apresentada no livro, ela passeia pela ruas de Nova York e se depara com um set de filmagem. Ao ver uma estrela de cinema entrar em um trailer ela julga ser Meryl Streep, exatamente a atriz que viria a dar vida a personagem no longa de Stephen Daldry anos depois do livro ter sido escrito.

“As Horas” também foi a primeira opção de titulo para o romance “Mrs. Dalloway”, mas Virginia acabou optando em não usá-lo.

Enfim, livro imperdível e altamente recomendável.
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Livro: As Horas [5/5]
Autor: Michael Cunningham 
Editora: Companhia das Letras

Foto: Wolney Fernandes

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