terça-feira, 8 de abril de 2014

Mrs. Dalloway


Lembro de ter começado a ler Mrs. Dalloway há alguns anos atrás e abandonado a leitura por conta de uma complexidade que, na época, me pareceu intransponível. Desta vez, consegui dar cabo do livro inteiro, mas ainda assim não foi uma leitura fácil. Acabei descobrindo que a tal complexidade que tinha me impedido de terminá-lo na primeira vez, nada mais é do que a escrita em fluxo de consciência. Através desse fluxo, somos guiados pelo rol de personagens e temos acesso aos pensamentos, às angústias, à vida deles, sem que isso seja sinalizado de forma muito precisa. Por várias vezes, precisei voltar alguns parágrafos para ligar os pensamentos aos seus respectivos donos. No entanto, depois que terminei a leitura, percebi que esse ir e vir foi uma parte importante da experiência de ler esse livro. Não resta dúvidas de que Mrs. Dalloway é uma leitura que, realmente, requer um pouco mais de atenção e exige do leitor um maior envolvimento.

Ambientado na Londres da década de 20, o livro acompanha um dia na vida da Clarissa Dalloway quando ela resolve dar uma festa. Durante o transcorrer do dia, marcado pontualmente pelas batidas do Big Ben, Clarissa evoca a própria juventude enquanto se envolve nos preparativos da festa e, de alguma forma, seu caminho se cruza com vários outros personagens: Septimus Smith, um ex-combatente da primeira guerra mundial, está literalmente à beira da loucura e considerando suicídio. Peter Walsh está de volta da Índia para falar com seus advogados sobre um caso de divórcio e por aí vai.

Apesar do livro todo se passar em um dia, eu achei que os personagens são muito bem construídos e muito plausíveis. Acho que boa parte disso deve-se ao fato de que temos acesso aos pensamentos deles enquanto ainda estão tomando forma. E depois que nos acostumamos, esse recurso acaba criando uma dinâmica muito interessante, pois conseguimos apreender um pouco da “essência” de cada personagem já que suas ações são narradas segundo essa lógica que é bem parecida com a vida real. Um bom exemplo disso é o momento em que Richard, marido de Clarissa, decide comprar flores para a esposa porque ele conclui que a ama muito. O legal desse fato é todo o processo do pensamento dele se desenvolvendo e o que ocorre até o momento dele chegar na frente de Clarissa e fazer isso (ou não fazer, conforme acompanhamos o desfecho dessa parte). O que parece uma ação bem simples, quando acompanhada pela trama do pensamento de Richard, desde o momento da decisão da compra das flores, até estar diante da esposa para dizer o que ele concluiu é um processo que se revela intrincado e repleto de pormenores que é muito bom de acompanhar. E é assim porque é permeado por dúvidas, contextos, receios e outras variáveis num desenho muito próximo do que acontece na realidade.

O romance também termina em aberto e a sensação que eu fiquei é de que deixei algo passar, pois acabei de ler e minha vontade era voltar à história de algum modo. Na sequência, li o livro “As Horas” cuja trama foi montada tendo Mrs. Dalloway como base e confesso que me ajudou muito a entender o modo e a forma com a qual Virginia elaborou cada conflito descrito na trama. Tanto que terminei o livro do Michael Cunningham e voltei ao livro da Virginia para reler certas partes que me soaram mais fortes ainda do que na primeira vez. Sem dúvida, Mrs. Dalloway é um livro muito bem escrito e, apesar dessa dinâmica diferenciada, é de uma sensibilidade assustadora. Valeu a pena ter insistido e me deixado levar pela correnteza de pensamentos muito bem delineados por Virginia Woolf. É um livro que precisa ser lido e relido!
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Livro: Mrs. Dalloway [5/5]
Autora: Virgínia Woolf 
Editora: CosacNaify

Foto: Wolney Fernandes

Um comentário:

Aline Aimée disse...

Ótima resenha!
Espero que meu reencontro com o romance seja produtivo e agradável, como o seu.
Inclusive, também pretendo ler o livro do Cunningham.

Abraço!