quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Seminário dos Ratos


Livro para o desafio literário: Os Componentes da Banda

“Seminário dos Ratos” foi um daqueles livros enigmáticos em que durante a leitura eu não tinha certeza se estava gostando ou não. Ao passar de um conto a outro, a impressão que eu tinha era de estar diante de uma obra mediana da Lygia Fagundes Telles. Acho que essa impressão se acentuou porque eu tinha lido a “A Estrutura da Bolha de Sabão” da mesma autora e gostado mais, uma vez que os temas dos contos me pareciam mais palatáveis.

No entanto, terminada a leitura de "Seminário dos Ratos" era como se eu não conseguisse me desvencilhar daquilo que tinha lido em cada conto e, como costumo fazer, deixei passar alguns dias até poder emitir uma impressão mais apurada sobre o livro.

Também não sei se consigo fazer isso agora, mas já posso afirmar que “Seminário dos Ratos” é sim, uma obra incrível. Os 13 contos reunidos parecem dar conta de apontar a instabilidade pela qual passam as mais diferentes posições do mundo. É como se sujeito e situação fossem interdependentes e a relação dos dois atuassem como uma sinfonia perfeita sem que um prevaleça sobre o outro. Esse estado cambiante em que cada personagem se encontra, ora sujeito da ação, ora subordinado pela mesma situação, me fez elaborar sentidos muito próximos da minha realidade.

E é impressionante como Lygia consegue dar conta de tanta realidade utilizando o insólito, o surreal e o fantástico. Amores plantados por toda vida, acertos de contas com o passado e o encontro com a morte parecem visões milimetricamente arquitetadas para habitar nosso imaginário mesmo depois dos pontos finais.

“As Formigas” já figura entre os contos de terror mais assustadores que já li, “Herbarium” tem a doçura dos primeiros encantos que enlaçam nosso coração diante do primeiro amor e “Pomba Enamorada” é dolorido e bonito na medida de um amor não correspondido e que se estende por toda uma vida. A morte anunciada em sonho e descrita em “A mão no ombro” nos faz pensar na fragilidade de cada acordar e nas dimensões existentes nos sabores experimentados durante o café da manhã.

Há tanto nas linhas tão bem elaboradas de cada diálogo que poderia ficar horas desfiando as inúmeras camadas que possuem. Um deles, em especial, me emocionou sobremaneira e é do conto “Lua Crescente em Amsterdã”:

- Quando acaba o amor, sopra o vento e a gente vira outra coisa - respondeu ele.
- Que coisa?
- Sei lá. Não quero voltar a ser gente (...) Queria ser passarinho, vi um dia um passarinho bem de perto e achei que devia ser simples a vida de um passarinho de penas azuis, os olhinhos lustrosos. Acho que eu queria ser aquele passarinho.
- Nunca me teria como companheira, nunca. Gosto de mel, acho que quero ser borboleta. É fácil a vida de borboleta?
- É curta."
[p. 104]

Na edição da Companhia das Letras há ainda um posfácio incrível do José Castello que traz a melhor de todas as histórias em torno da autora. Ao narrar uma volta do cinema cercada pelo medo de ser morta por um motoqueiro desconhecido, Lygia sacode nossos pensamentos ao evidenciar que amor e morte se confundem, pois “medo e paixão ocupam um só lugar. Avesso e direito. Uma coisa só.”

Precisa dizer mais?

Foto: Wolney Fernandes

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