segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"Viver é viver de outra maneira"


"Existem momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se vê é indispensável para continuar a olhar ou a refletir." 
[Michel Foucault]

Eu só queria passar mais um Dia dos Pais sem que a euforia e as demonstrações de carinho em torno dessa data me afetassem tanto. Então, longe das redes sociais, mergulhei no livro de Mathieu Lindon que, pela temática, me parecia um bom lugar para encontrar refúgio.

"O que amar quer dizer" (CosacNaify, 2014) é um retrato afetuoso de Michel Foucault, decalcado da amizade do autor do livro com o filósofo francês no início dos anos 80. Afoito, em parte pela curiosidade em saber da vida íntima de um dos maiores pensadores do século XX, comecei a leitura e nada me preparou para o que eu encontraria nas 285 páginas desta edição.

"Pode vir cuidar das rosas quando eu não estiver aqui."

A história narrada por Lindon tem o encontro com Foucault como ponto de apoio, mas o que sua escrita reflete é muito mais sobre seu próprio amadurecimento frente a essa amizade do que qualquer outro desnudamento por parte da vida desregrada de Michel, encerrada pela AIDS em 1984. E mais, essa relação de confiança serve também como espelho para refletir as nuances que se assemelhavam e se diferenciavam daquela que o autor travava com o próprio pai. Esse jogo de reflexos vai, aos poucos, revelando as escolhas que Mathieu foi levado a fazer vida afora. 

"A gratidão é um sentimento suave demais para se guardar."

Por entre a descoberta do corpo, da sexualidade, das drogas, dos livros, das amizades, dos amantes, de viagens sem data de retorno, o que a escrita do autor deixa entrever é uma abertura dentro da sua bibliografia para celebrar o "prazer de viver sem saber que isso era crescer". Com Foucault, o tímido Mathieu descobre ser capaz de ter amigos fora do círculo familiar e, assim, libertar-se dos ressentimentos para receber e retribuir o amor de seu pai de modo muito peculiar.

"Só espero que quando chegar a hora eu sinta que não lhe causei nenhum grande dano, o que me dará o direito de lhe pedir, com um beijo, que me esqueça."

Pela primeira vez, eu, Wolney, entendi que falar de esquecimento é também falar de amor. Logo eu que sempre me desdobrei para lembrar, ao terminar o livro passei a me perguntar: O que é preciso esquecer para que os mortos não se fechem em seus próprios túmulos? 

Há 23 anos, meu próprio pai também me ensinou a morte e todos os apagamentos advindos desse fato imutável, inclusive o meu próprio. Meu pai morreu, o tempo passou e há anos penso em como me relacionar com ele, uma vez que, desde então, só eu alimento nossa relação. 

"Minha imaginação não serve para mais nada. Sim, os seres que amamos morrem e não ressuscitam."

Faz tempo que a morte ecoa em mim um tom que me aterroriza porque tenho me prendido a ela por aquilo que ela me negou. Talvez seja a hora de reconhecê-la pelos desvios que ela criou e, de outros modos, também me concentrar nas reminiscências advindas desses trieiros que me provocam a ser feliz, vivo, agora. 

"Como acreditar no que é, sem dúvida, a verdade?"

O livro escrito por Mathieu, 30 anos depois de ter vivido entre dois homens - o próprio pai e Foucault - "sem nunca tentar substituir um por outro" não nos dá uma resposta pronta, mas aponta um jeito bonito de ver/entender a si próprio à partir do amor que nos é oferecido de modos distintos. Cada um a seu modo, plantaram nele (e em mim) a certeza de "é preciso tempo para compreender o que amar quer dizer".

Seja qual for o valor dos diversos protagonistas da história [re]contada por Lindon o que sei é que, por eles, me dou conta de que é possível redimensionar a experiência vivida e encontrar jeitos de poder dar à luz ao meu próprio pai sem, com isso, aplainar seus defeitos e/ou exacerbar suas qualidades. 

Tramar literatura e vida é o que eu tenho tentado fazer com os livros que me atravessam. "Tenho a sensação paradoxal de que, estando neles (nos livros), nada me atinge, ao passo que eles me perturbam de forma doentia, vítima de uma sensibilidade extrema à escrita."

De certa forma [ou de muitas formas], meu envolvimento com esse livro borra os limites da literatura com a vida. E, apropriadamente, ao associar pequenas epifanias cotidianas à leituras de Proust, Victor Hugo, Adalbert Stiffer e outros autores que mantivera contato durante parte da sua formação, Mathieu Lindon ensina como fazer brotar, do lado de cá, as ramificações ternas e eternas de uma obra pungente. Por suas reflexões literárias foi possível me entender como um "herói de um romance de aprendizado perpétuo, de reeducação permanente".

Eu teria gostado de poder dizer ao meu pai o quanto sua falta, feroz ou suavemente, moldou o homem que eu sou. Diante da impossibilidade de fazê-lo e apoiado no esquecimento de uma imagem da morte que eu mesmo criei, sigo, então, na certeza de que "viver é viver de outra maneira".

Foto: Wolney Fernandes

3 comentários:

Raí disse...

Já quero ler, embora seu texto já tenha valido demais!
Obrigado.

Fábio Dutra disse...

Linda resenha/texto.

tiago disse...

Adoro esse livro. Lindo seu texto!