quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sussurro pela vida


Não há como falar da minha relação com a Casa da Juventude Pe. Burnier sem contar, primeiro, essa história: Lá pelos inícios da década de 90, às voltas com o grupo de jovens da minha pequena cidade natal, chegou às minhas mãos um livrinho míudo, em preto e branco, mas com jeitos e imagens que encantaram meus olhos. O encantamento com o material era tanto a ponto de querer saber de onde tinha saído aquela publicação que sabia falar a minha língua e me impelia, pelas vias da autonomia, a olhar minha própria história.

O tempo passou e em 1997 eu me mudei para Goiânia. Coincidentemente (ou nem tanto assim, vai saber, né?) eu passei a morar há exatas três quadras de onde se encontrava a Casa responsável pela produção daquele livrinho e pela formação de uma juventude inteira. Numa dessas vontades que a gente não explica, um dia eu fui visitar o lugar e de lá não saí mais. Foram cursos, tardes de formação, escolas, festas e toda sorte de acontecimentos.

Um desses acontecimentos foi o encontro com Walderes Brito que, na época, era responsável pela comunicação da Casa e com o Berg, designer do lugar e colega de faculdade, mesmo ele estando dois anos à frente de mim. Esses encontros me possibilitaram apresentar meus desenhos (tímidos e inseguros numa pasta catálogo) e a começar uma relação mais próxima com os trabalhos que a CAJU desenvolvia na época. Comecei fazendo ilustrações para o informativo e logo meus desenhos se espalharam para os cartazes, folderes e corredores do lugar.

Esse "namoro" durou um tempo e no dia 01 de Maio de 2005 fui contratado pela Casa da Juventude para fazer parte do Setor de Comunicação atuando como designer gráfico. De lá pra cá, a CAJU foi responsável em grande parte pela minha formação profissional, projetando meu trabalho para o Brasil e América Latina afora. De repente, eu era o responsável pelos desenhos e pelas formas das publicações que, como aquele livrinho lá na década de 90, rodavam o mundo encantando outros jovens.

Depois de nove anos, ontem fui oficialmente desligado do trabalho da CAJU. E é impossível deixar aquele lugar sem registrar aqui minha gratidão pelas possibilidades que o trabalho na Casa me apresentou. Muito mais do que fazer design para jovens, esse tempo foi um tempo de diálogo com os sonhos de juventudes tantas, onde o que eu desenhava era sempre colorido por outros sentidos e significados que deixavam meu trabalho muito, mas muito mais bonito. Meu agradecimento é sem fim...

Esse tempo também bordou minha existência com encontros e(ternos) e amizades sensíveis que valem por uma vida inteira. Na impossibilidade de nomear todos aqui, passo à lembrança, em especial, do Pe. Geraldo Nascimento, que no calor do seu abraço sabia abrir horizontes com generosidade e comprometimento. À Gardene Leão, pelos dias regados a muita cumplicidade, música e outras gostosuras que ainda dão água na boca só de lembrar. À Carmem Lucia pela inquietude, por sempre me desafiar a olhar a juventude de um outro lugar, estranho e inquieto, mas sem jamais perder a ternura. Ao Berg, companheiro de trabalho e amigo fiel que ainda me ensina como fazer e como não esmorecer. À Márcia, por plantar alegria onde eu só enxergava aridez e por fazer das últimas tardes - ao som de Fábio Jr. e outras tantas canções do Globo de Ouro - as mais bonitas de todas! Ao quadro de funcionários de antes e ao quadro de agora, mesmo sem os nomes marcados aqui, saibam que meu peito segue marcado, rabiscado e colorido por todos/as. Obrigado, muito obrigado!

Os últimos tempos na Casa me puseram à prova e atestaram, com veemência a efemeridade das coisas, mas não das relações. Esse período, embora menos desafiador em se tratando de trabalho, foi intenso naquilo que realmente importa: o entrelaçamento de forças e o ajuntamento de esperanças para olhar adiante que é o que eu faço agora. Meu olhar segue alternando entre o céu e aquilo que virá. A imagem que fica é a imagem daquela pipa, desenhada lá em 2005 e transformada até hoje por onde quer que ela voe. A juventude segue com seus gritos pela vida, eu de cá sigo sussurrando por ela também!

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