quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"Foi. Nunca mais será. Lembre-se."


"O Inventor da Solidão" é um livro dividido em duas partes que se complementam. Na primeira, diante da morte do pai, o autor mergulha em lembranças que se avolumam à medida que precisa vasculhar a casa e os objetos da casa onde o pai viveu isolado por quinze anos. O relato, terno e sagaz, descortina segredos familiares e revela a história de um homem cuja vida foi marcada por uma tragédia que o levou a se isolar do mundo.

"Comia, ia para o trabalho, tinha amigos, jogava tênis, e apesar disso não estava ali. No sentido mais profundo e inabalável, era um homem invisível. Invisível aos outros, e muito provavelmente invisível a si mesmo. Se, enquanto esteve vivo, eu costumava procurá-lo, tentando encontrar o pai que não estava lá, agora que morreu ainda acho que devo continuar a procurá-lo. A morte nada mudou. A única diferença é que para mim o tempo se esgotou."

Na segunda metade da obra, acompanhamos a elaboração criativa em torno do livro que temos em mãos num exercício de metalinguagem muito bem articulado. É nessa parte que as reflexões se adensam em um mar de referências advindas da literatura, da música, da poesia, das artes plásticas, das viagens e da natureza dos acasos que marcaram a vida de Auster e do sentimento que ele investiga.

"A memória, portanto, não apenas como a ressurreição do próprio passado particular, mas uma imersão no passado dos outros. O que vale dizer: a história - da qual a pessoa tanto participa quanto é testemunha, faz parte dela e está à parte dela."

O livro transita entre a fragilidade da vida e a certeza da morte, entre a linha tênue que separa a literatura da realidade, a recordação do esquecimento... O texto desencadeia também, com muita propriedade, um panorama tocante da relação entre pais e filhos e nos lembra, o tempo todo, do caráter efêmero daquilo que vivemos.

"Vagar pelo mundo, então, é também vagar por nós mesmos."

Para deixar um pouco do sabor intenso da leitura, segue abaixo algumas das referências utilizadas pelo autor na composição da obra. Cada uma delas, a seu modo, funciona como uma nota cuja partitura parece conter uma canção inesquecível.

Um poema de Mallarmé:
"Encontrar apenas 
ausência
na presença
de roupas
etc.

não - eu não
desistirei
do nada

pai - eu
sinto o nada
a me invadir"

Uma canção interpretada por Billie Holiday
Para ouvir, clique aqui

Um trecho do Livro de Jonas:
"Faz-me bem sentir raiva, mesmo até a morte".

Uma pintura de Vermeer



Foto: Wolney Fernandes
Imagem: Detalhe da obra "Mulher de Azul lendo uma carta" (1664) de Johannes Vermeer

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