quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Formas de Voltar para Casa


"É melhor pensar que tudo isso foi uma história de amor."

Reconciliação é a palavra que atravessa todo o livro "Formas de voltar para casa" do chileno Alejandro Zambra. Seja no âmbito privado ou no social, a trama recompõe encontros com o passado por meio de relacionamentos amorosos, filiais e patrióticos. A história gira em torno de um narrador que tece reflexões sobre seu próprio processo de escrita e seu personagem - um professor que reencontra uma amiga de infância e, à partir desse encontro, revisita o passado. Alternando entre um e outro, Zambra consegue tecer situações alusivas à ditadura chilena e as derivações compostas tanto pelas pessoas que efetivamente se envolveram, quanto por aquelas que ficaram à margem dos conflitos daquele período.

"Enquanto os adultos matavam ou eram mortos, nós fazíamos desenhos num canto. Enquanto o país se fazia em pedaços, nós aprendíamos a falar, a andar, a dobrar guardanapos em forma de barcos."

O livro posiciona seu narrador entre o passado e o presente, realçando seu caráter reflexivo diante dos fatos vividos e dos aprendizados derivados dessa experiência. Os planos individuais e coletivos, mesmo alternados, possuem ecos que reforçam a influência de um sobre o outro e que se desdobram dentro de um desenho mais amplo. No entanto, essa relação de forças é, primordialmente apresentada no âmbito particular e é aqui que, a meu ver, está a genialidade da história, pois o autor consegue dizer do macro, focando as particularidades e as sutilezas de um cotidiano simples. Não é à toa que a primeira parte do livro seja intitulada de "Personagens Secundários".

Zambra é detentor de uma linguagem enxuta, sem firulas e isso marca com precisão cada trecho do livro, pois todas as partes parecem necessárias ao enriquecimento da trama. Além disso, as imagens e os recursos metafóricos utilizados também funcionam muito bem. É assim na cena do terremoto, um abalo que coloca no mesmo cenário tanto a família militante quanto o núcleo familiar que se posiciona à margem das questões políticas. É assim também quando o autor cria uma relação de equivalência entre a figura dos pais e a do país. As reconciliações familiares, tanto da mocinha que precisa voltar dos Estados Unidos para o Chile quanto do protagonista que passa a questionar a indiferença dos pais à ditadura, são mostras contundentes dessa boa utilização de metáforas para ajudar no andamento da história.

Com frescor, o livro realça um tema árido, como é o tema da ditadura, que mesmo servindo como pano de fundo nunca resvala na pieguice e nem diminuiu ou aplaina suas consequências. A história (de amor?) que nós é apresentada é repleta de imagens bonitas e evocativas e talvez a que mais tenha me emocionado seja a da camisa que traz em suas entrelinhas sentidos que ultrapassam aqueles dispostos pela história:

"Guardei as camisas de meu pai numa gaveta durante meses. Desde então aconteceram muitas coisas. (...) Olho agora essas camisas, estendo-as sobre a cama. Gosto de uma em especial, cor azul petróleo. Acabo de prová-la, definitivamente fica pequena em mim. Olho-me no espelho e penso que a roupa dos pais deveria sempre ficar grande em nós. Mas penso também que precisava disso; que às vezes precisamos nos vestir com a roupa dos pais e nos olhar demoradamente no espelho."

Vestir-se com a roupa dos pais [ou do país de origem], muitas vezes significa voltar e, nessa volta, reconciliar-se com uma história onde, na maioria das vezes, somos [ou fomos] simples coadjuvantes. Tão simples e, ao mesmo tempo, tão dolorido assim.

Foto de Leonard Freed - Running to school, 1965

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