segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O Legado de Eszter


O homem que Eszter ama vai voltar depois de um hiato de vinte anos. Atordoada por um turbilhão de sentimentos contraditórios, ela se prepara para a chegada de Lajos que, entre juras de amor no passado, acabou por desposar sua irmã. Às vésperas desse acerto de contas, Eszter nos apresenta o dilema que carregou pela vida inteira: seu amor é também sua perdição e, paradoxalmente, acalenta e dilacera seu coração como um encantamento que a conduz para o precipício.

"Ao me presentear, a vida foi maravilhosa, e ao me roubar, perfeita... que mais posso esperar?" [p. 05]

No livro, Sándor Márai tece uma trama onde os fios temporais se cruzam sem piedade sobre os personagens dessa história. Há uma elegância - eu diria quase cruel - no modo como ele utiliza o tempo para fortalecer o irrecuperável das coisas perdidas, colocando junto delas uma vontade de mudança que o tempo não permite.

"Talvez o tempo, que não se compadeceu de mim, talvez a lembrança, que não é cruel como o tempo, talvez uma graça especial que, segundo o ensinamento de minha fé, cabe também aos indignos e despeitados, talvez, simplesmente, a experiência e a velhice me levem a encarar a morte com serenidade." [p. 05]

Lajos é sedutor e consegue fazer o mundo orbitar em torno de si. No entanto, essa sedução é aniquiladora e atua como uma espécie de canto da sereia que enleva, inebria para depois afogar. Eszter, por outro lado, sabe disso e seu anseio por libertação traça um movimento entre a maturidade forçada e o desejo de reviver aquilo que deu sentido à sua juventude.

"Começo a crer que as decisões solenes e definitivas, que traçam o relevante na linha do destino de nossas vidas, são bem menos conscientes do que acreditamos mais tarde, nos momentos de rememoração e lembrança." [p. 07]

Tudo no livro é permeado por uma expectativa diante dessa chegada que vai alterar a rotina de uma vida simples e pacata que Eszter leva com Nunu - a criada da família - que faz as vezes da consciência crítica que ata o peso dos fatos à realidade. Assim como Lajos, os personagens dessa história são densos e capazes de nos fazer transitar junto de suas almas atormentadas.

"Nem acredito no passado! É tudo mentira, conspiração, cena de palco ensaiada, com adereços teatrais, cartas e juras antigas nunca ouvidas." [p. 94]

E é bem difícil acompanhar os fatos dessa história sem que uma angústia nos envolva diante dos encaminhamentos sugeridos pelo autor. Da metade para o final do livro, incrédulos, vemos Eszter caminhar rumo ao precipício que parece se desenhar no final da linha tênue traçada por uma vida de privações.

"E, ao mesmo tempo, sabia que ainda não suspeitava da verdade sobre a vida, sobre a minha vida e a dos outros, e só por meio de Lajos descobriria a verdade - sim, por meio de Lajos, o mentiroso." [p. 43]

Mesmo cientes da queda, seguimos esses personagens como leitores ávidos em função de uma escrita elegante e envolvente que nos faz testemunhas dessas contradições tão típicas da alma humana. Um livro irresistível que se impõe sem precisar convencer.

Foto: Wolney Fernandes

Um comentário:

Neusa Trevisan disse...

Olá Wolney!
Li esse livro depois do primeiro SNAP que vc fez sobre ele! Na verdade, eu e minha irmã o lemos no mesmo dia e, passado algum tempo, ainda temos discussões sobre a Eszter e o Lajos. Eu amei o livro, ela odiou! O que pude observar é que, independente do "gostei/não gostei" , este livro tem muita força.
Pra mim, deixou um "nó na garganta" que precisou ser bem elaborado depois da leitura!
Muito obrigada pela indicação e por seus Snaps maravilhosos!
Abçs!