sexta-feira, 9 de março de 2012

Passagem das Horas*


Penso que valeu a pena ter ignorado o medo algumas vezes: atravessar a ponte que separa o interior da capital, voltar de ônibus pra casa sem saber o próprio endereço, cruzar o Atlântico na primeira viagem de avião, gaguejar na aula de História da Arte, pronunciar um "não" sem saber o som que ele tem...

"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso que é tanto, é pouco para o que quero."

[Álvaro de Campos]

Lendo Álvaro de Campos, desenhando e vendo filmes [são tantos], tenho a segurança de me apegar a essas lembranças de olhos fechados, sem receios.

E é esse passado tão presente que me faz tão bem e tão cheio de vontades. Sei que vai parecer frase de autoajuda, mas pronuncio com a autoridade de quem vive beijando incertezas: Já tendo vivido momentos únicos, há a certeza de que eles existem e que sempre voltarão num futuro próximo.

[*] Título retirado do poema de Álvaro de Campos.
Foto: Wolney Fernandes

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