quarta-feira, 6 de junho de 2012

Vida de Margarina


Em sonhos de margarina eu acordaria cedinho sem a cara amassada e sem remela nos olhos. Antes das sete já teria tomado um café da manhã com mais variedades que o da Ana Maria Braga. Saberia onde está o passaporte e o carnê de IPTU do meu apartamento que, muito bem localizado, receberia a luz da manhã difusa e serena. Ouviria árias de óperas famosas durante a preparação do jantar regado a carnes brancas com queijo de cabra e salada para manter meu peitoral largo e durinho, fruto de uma genética que teria me agraciado também com cabelos sedosos, insistentemente caídos sobre meus olhos de linha de horizonte.

Eu leria todos clássicos da literatura e teria livros de arte displicentemente arranjados na mesinha da sala. Minhas cuecas seriam brancas e trariam escrito Calvin Klein em letras finas e cores esmaecidas. Meu trajeto para o trabalho seria feito sem xingamentos no trânsito e circularia por vernissages com espumantes na mão para ajudar meus dentes brancos a reluzirem aquele sorriso que deixaria todos a meus pés.

Eu teria 2.458 seguidores no Instagram que, além de elogiar minhas lindas fotos, também me paquerariam toda semana com comentários dúbios e cheios de segundas e terceiras intenções. Meus encontros seriam sempre nos melhores restaurantes regados a vinhos de safras raras. As noites começariam em boates da moda e terminariam envolvidas por edredons claros e macios onde nenhuma mentira seria contada.

Em vida de margarina eu não precisaria suportar nada que sulcasse meu coração. Mais do que nunca, eu cantaria para aceitar o fato das dificuldades que me seriam impostas. De uma forma irracional eu sempre acreditaria que algo de bom me esperaria na esquina da frente. Talvez a Mega Sena, talvez o amor avant-garde soprando mansinho nos ouvidos, talvez aquela epifania que faria todas as raivas e tristezas desaparecerem em um click apenas.

Imagem capturada aqui.

Um comentário:

Cláudia Bastos disse...

Wolney, pelo que sei e admiro em vc, esse sonho de margarina nunca foi seu verdadeiro sonho... Adoro o que vc escreve! Cláudia Bastos