domingo, 8 de julho de 2012

Última vez


Da soleira da porta enxergo "seu" Aquino descer a ladeira arrastando os pés pela rua enquanto penso constrangido que minha memória já não se ocupava mais dele. Porém, bastou uma isca de olhar para que uma enxurrada de lembranças saltassem à vista.

Talvez ele já tenha nascido idoso. Eu era menino e ele já tinha rugas expressivas emoldurando os olhos claros. Na cabeça, chapéu de feltro marron. Na calça de linho, a barra da camisa clara se esconde e a manga abotoada no punho cobre seus braços longilíneos. O bigode fino é mantido sempre bem aparado e do cabelo curto e grisalho só se enxerga um restinho. Viajante do tempo, sou capaz de jurar que ele veio direto dos anos 30 para o século XXI sem nenhuma escala.

Imagino que seus 88 anos só apareçam refletidos no caminhar miúdo de agora, sem a desenvoltura ligeira que meus olhos de menino fisgaram no passado. Ele dobra a esquina pé ante pé e some das minhas vistas sem que eu me lembre de fotografá-lo.

Penso que talvez essa seja a última vez que o vejo.

Imagem: Modelo Vermelho de René Magritte

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