domingo, 7 de setembro de 2014

Companheiro de viagem


Fui um dos derradeiros a entrar no avião. Do meu lado, um senhor que podia ser meu avô estava concentrado em olhar para a pequena tela instalada na poltrona da frente.

Pedi licença para me acomodar e ele, dono de uma simpatia silenciosa, olhou-me com um sorriso sereno. Enquanto apertava os cintos, ele sentou novamente e continuou a observar as imagens da TV de bordo. Na tela, um canal de rádio desses em que a música é acompanhada por fotos que se alternam, feito slides de powerpoint programados para repetir um conjunto de imagens. Notei que ele estava sem fones de ouvidos e, tentando um jeito de puxar conversa, ofereci os meus. Ele recusou!

Diante da recusa, minha tímida vontade de conversar se recolheu para as páginas do livro que eu tinha em mãos e decolamos os dois, lado a lado, em um silêncio que só aquele céu parecia caber. 

Meus olhos se mantinham no livro, mas a atenção insistia em observar aquele senhor ao meu lado numa aproximação insana que minha imaginação parecia repetir incessantemente: "E se ele fosse meu avô?" - Estaríamos conversando ou em silêncio? Ele teria aceito meu fone? Por que estaríamos viajando juntos? Ele gostaria de saber a trama do livro que eu lia? Que músicas ele estaria ouvindo? Eu teria insistido pra ele sentar na janela? Ele teria comentado sobre a paisagem que se distanciava de nós?

Num dado ponto da viagem, o senhor se remexeu na poltrona para ajeitar as pernas e resmungou. Aproveitei aquele muxoxo para fazer um breve comentário sobre a falta de espaço cada vez mais evidente em voos do tipo. Olhou me por um momento, mas não emitiu palavra alguma à respeito.

Em meio a possibilidades inventadas, decidi que era hora de me concentrar na leitura, recolher minha imaginação e deixá-la de castigo até segunda ordem.

Já absorto na trama do livro, fui surpreendido pela aeromoça que se aproximou para anotar pedidos de bebida. Imaginando que a pergunta tinha sido feita para ambos, eu e "meu avô temporário" respondemos em uníssono: Coca-cola!

Sorrimos os dois e cada um voltou ao seu silêncio particular. Abri o livro novamente e, antes de retornar àquelas páginas, olhei para a janela do avião com uma saudade daquilo que não vivi. 

Foto: Wolney Fernandes

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