segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Apocalipse dos Trabalhadores


Maria da Graça e Quitéria são diaristas, - ou "mulheres a dias" como se diz em Portugal - fazem bico como carpideiras e protagonizam "O Apocalipse dos Trabalhadores", livro de Valter Hugo Mãe que eu acabei de ler.

Aprisionadas em um cotidiano opressivo, as duas sonham, cada uma à sua maneira, futuros distintos de um presente ausente de sentidos.

"toda a minha vida trabalhei, desde os meus doze anos que lavo roupa e limpo casas em toda a parte e não sei fazer mais nada. não sei fazer amor. eu não sei fazer amor."

Maria da Graça, mesmo casada, é apaixonada pelo senhor Ferreira, um velho que ama a obra de Rilke e passa os dias ouvindo Requiems variados. Quitéria, mesmo pragmática em relação ao amor, acaba enxergando em Andriy, um jovem imigrante ucraniano, a possibilidade de transformar sua necessidade sexual em amor.

Cada apocalipse diário vivenciado pelas amigas é também permeado pelo desejo de não ficar apenas às portas do paraíso, mas de adentrá-lo. Impulsionadas pela certeza de uma vida mais feliz, as duas buscam preencher seus dias com amores colecionados ao sabor da esperança e da certeza da morte.

O livro possui um tom de humor que permeia principalmente os primeiros capítulos. As noites em que Quitéria e Maria da Graça passam velando defuntos são escritas com uma agilidade que impressiona. Os diálogos entre as duas são muito mordazes e capazes de espalhar sorrisos por várias páginas. Há também os sonhos de Maria da Graça com São Pedro diante da porta do céu que faz cócegas a cada parágrafo. 

A escrita primorosa do autor parece nos conduzir progressivamente a um descortinar de tristezas embaladas por alegrias fugazes, pequeninas e diárias. Ao final do livro, percebemos que o tom de humor dá lugar a uma certa melancolia que parece (só parece) encobrir as esperanças cultivadas lá no início.

"acordou pesada. levantou muito ligeiramente a cabeça e começou logo a chorar. era um choro pequeno, de tristeza muito habituada, uma tristeza a vir quotidianamente para sempre, para completar o tempo que ainda teria de viver."

Capaz de criar situações de beleza ímpar, Valter Hugo Mãe consegue fazer da história dessas trabalhadoras portuguesas, a história de muitos, de seres apaixonados para quem o sentido da vida é uma esperança que está sempre no horizonte e, quase nunca, ao alcance da mão.  

Me impressionou bastante como o autor humaniza seus personagens, sem que a gente sinta pena ou os enxergue apenas como estereótipos. Mesmo depois de conseguir "esfregar o coração no chão", continuo achando que a escrita do Valter foi a melhor descoberta literária do ano.

"dizia-lhe, obrigado, quitéria, muito obrigado. e ela desfazia-se em coração e não imaginara nunca que aquele gesto poderia ser o mais mudador de toda a sua vida. aceitou aquele abraço pelo lado mais interior do amor, rasgando com o passado a costumeira ferocidade. [...] e agradeceu-lhe como pôde pela oportunidade única de se humanizar daquela maneira e percebeu a inteligência mais secreta de todas. esta é a inteligência mais secreta de todas, o amor."

Foto: Wolney Fernandes

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