quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Os Dias Lindos


"Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É necessário proclamar: Os dias ficaram lindos."

Tomo emprestado as primeiras linhas da crônica que dá nome ao livro do Drummond para dizer, com toda convicção, que esse texto é uma proclamação de como meus dias ficaram lindos ao entrar em contato com essa obra do autor.

Os dias lindos reune textos publicados no Jornal do Brasil pelo escritor mineiro durante a década de sessenta e setenta. Os textos que compõem essa edição foram divididos em seis grandes sessões temáticas: burocracia, linguagem, passagem do ano, cartas, matutações e histórias. Foi com surpresa que descobri um Drummond irônico, mordaz, bem humorado e extremamente atual no que diz respeito à escolha dos temas e ao tom que ele escolhe dar aos textos.

"Dos escritores não sinto pena. São pessoas que geralmente não têm o que fazer, tanto que passam o tempo escrevendo. Muitos levam esse vício até noite alta, quando os indivíduos normais dormem ou estão nas boates."

Seu olhar atento às minúcias do cotidiano - como dedicar uma crônica aos pêlos que nascem da orelha - e à partir dessas miudezas, escavar profundidades é algo recorrente. Cada parágrafo parece acomodar intensidades diferentes que se movimentam entre a ironia e a poesia.

"E João Brandão, um entre tantos Brandões anônimos, repetidos, vê e sente que a tudo está ligado e tudo nele se liga, de bom e de mau, com a perspectiva da esperança para curar suas misérias, com o fundo e tumultuado desejo de explicar-se a si mesmo na aparente falta de explicação (o nexo oculto) de tudo."

Dominando, com muita propriedade, o uso da língua portuguesa, Drummond brinca com as palavras propondo desafios para si próprio e para nós, leitores. Bons exemplos desse exercício de escrita aparece em uma crônica que ele constrói inteira só utilizando versos de marchinhas de carnaval, ou em textos como "O homem no condicional" cuja cadência se dá pela utilização da partícula "se".

"Se faço uma crônica em se, sei lá se lhe sentirão o sentido."

Ou então na cadência das expressões idiomáticas que utilizam a palavra "mão".

"Que seu concurso seria uma mão na roda; que tivesse paciência e desse uma mãozinha, mesmo de mão beijada, pois o clube não falara em pagamento; enfim, que aguentasse a mão, mesmo que isso fosse uma tremenda mão de obra, para que os velhinhos convidadores não ficassem de mãos abanando, ou com uma mão atrás e outra adiante, ou ainda, para falar mais claramente, na mão."

Outro aspecto que me chamou a atenção foi a pertinência das reflexões feitas pelo poeta em torno de temas muito bem escolhidos que, apesar de terem sido escritos há 50/40 anos atrás, continuam atuais. A crônica em que um pai questiona o uso de um "gravador" nas aulas do colégio do filho, poderia muito bem servir à quem tem aversão às novas tecnologias do nosso tempo.

Entre profetismos, cotidianos, risadas e tratados para a vida, o livro conseguiu me fazer estender a leitura na tentativa de permanecer naquelas páginas por muito mais tempo, economizando cada texto para o dia seguinte. O Drummond poeta já era meu velho conhecido, o cronista passa, agora, para aquele canto do coração onde se guarda só a beleza dos dias lindos.

Ah, e ele também proclama que os tais dias lindos estão ali, na curva entre abril e maio, mas que a boniteza que eles carregam podem se esconder naqueles momentos em que, "livres do peso dos acontecimentos mundiais, trágicos e esmagadores", habilitamos nosso olhar também para o céu na tentativa de "degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz" e, assim, "nos integrar num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente."

Foto: Wolney Fernandes

Um comentário:

Luisa Dias disse...

Que vontade de amanhecer nos dias lindos do Drummond e ficar economizando as páginas para poder prolongar a beleza, assim como você fez. Ótima leitura!